1. O primeiro mergulho em Firopótamos 

Essa foi a primeira praia que conheci em Milos. E eu não poderia ter escolhido melhor. De cima, já é possível avistar uma das vistas mais tradicionais quando se pensa na Grécia: um vilarejo de pescadores com casas branquinhas do lado esquerdo, junto com uma igrejinha com a bandeira grega; um paredão enorme e rochoso do lado direito; e um mar tão azul que é difícil até explicar. Meu primeiro banho de mar por aqui foi mais do que especial, e uma das sensações que eu mais amo na vida é abrir os olhos debaixo d’água e ver a imensidão azul.

O único barzinho/restaurante da praia ainda não estava aberto por esses dias, e nas praias de Milos há pouquíssima ou nenhuma estrutura de alimentação (esse é o charme da ilha). Por isso, todos os dias eu preparava meu almoço/lanche pra levar comigo. Um pão pita grego, algum patê, iogurte grego com frutas e mel grego — e isso se tornou uma das memórias mais especiais da viagem. Já sinto saudade dos meus lanchinhos diários. 

2. Nascer do sol em Sarakiniko: uma das coisas que eu mais estava ansiosa para fazer. Compartilhar um café da manhã na praia. 

Acordamos às 4h50 da manhã, preparamos nosso café para levar e caminhamos 40 minutos até a praia. O espetáculo já começou na estrada. Um pequeno desvio de rota, pois nos perdemos no caminho. Chegando lá, muita gente espalhada pelos paredões rochosos vulcânicos que nos fazem lembrar da Lua. Sarakiniko ficou famosa na internet pelos vídeos da galera pulando de um desses paredões direto em um mar azul infinito. E confesso que isso foi uma das coisas que mais me fez querer conhecer Milos.

Café e ovos quentinhos pra mim e para os amigos que fiz durante a viagem! Depois de compartilharmos um café da manhã mais que especial, voltamos pra descansar um pouco e logo explorar outras praias da ilha.

3. Jantar no O! Hamos! 

Ouvi falar desse restaurante antes mesmo de chegar em Milos. Confesso que eu não estava com muitas expectativas, pois muitas vezes esses restaurantes famosos na internet decepcionam um pouco. Fui achando que comeria algum pescado fresco — algo típico mediterrâneo — mas não. Chegando lá, me surpreendi com alguns pratos típicos gregos que eu ainda não conhecia. A geografia da Grécia favorece a criação de ovelhas e cabras mais do que de gado. A família do restaurante cria suas próprias ovelhas e cabras, produz os queijos e utiliza ingredientes locais de Milos — ah, e o cardápio todo foi escrito à mão e traduzido para dezenas de idiomas, inclusive português. Muitos dos pratos são receitas tradicionais da ilha que você dificilmente encontra em restaurantes turísticos mais modernos.

Pedimos pro garçom que decidisse por nós o que valia a pena experimentar. Por sermos brasileiros, ele recomendou um pastelzinho grego artesanal com queijo de cabra e os pratos mais típicos da casa. Uma saladinha fresca com toque grego. Gourounopoulo Gemisato (Leitão Recheado Assado Lentamente): um dos destaques da culinária rural grega. O leitão é assado lentamente até que a carne fique extremamente macia, quase desmanchando ao toque do garfo.

Arnáki Soufoutkiko (Cordeiro Tradicional de Milos): talvez o prato que melhor represente a identidade gastronômica da ilha. O cordeiro é cozido lentamente, envolto em papel, junto com ervas locais, alho e azeite. O resultado é uma carne extremamente macia, suculenta e inesquecível. 

Uau! Essa foi uma das experiências gastronômicas que nunca vou esquecer na vida. Eu já tinha por mim que a culinária grega é a melhor do continente europeu, e saí de lá mais convicta ainda dessa tese. Antes de irmos embora, ele nos ofereceu um licor da casa e veio brindar com a gente: Γειά μας! (Yia mas!) — saúde, em grego! 

4. Um passeio de barco e pelas histórias de Kleftiko 

Kleftiko é o highlight de Milos. É onde todos vão pra conhecer. É uma enseada cercada por formações vulcânicas e cavernas marinhas. Enormes formações rochosas brancas, cavernas e túneis naturais com a água mais cristalina da ilha. 

Decidi um dia antes, já tarde da noite, reservar o passeio. Tentei reservar pra ir com a minha amiga brasileira que conheci por lá, mas o dela já estava esgotado. No fim, eu sabia que ir sozinha também teria seu lado ainda mais especial. 

Reservei um passeio de um dia inteiro passando por vários arquipélagos e pequenas praias, com almoço e bebidas inclusos, em um pequeno barco à vela mais intimista que os outros passeios, que eram catamarãs cheios de gente e barulho. 

O dia estava perfeito. Paramos em várias pequenas praias paradisíacas no meio do caminho. Comemos nosso café da manhã, eu tomei meu cafézinho quente de todos os dias e, aos poucos, fomos chegando próximos de Kleftiko.

A tripulação era muito querida e começou a nos contar a curiosa história por trás de Kleftiko: um antigo esconderijo de piratas transformado em um dos cenários naturais mais impressionantes de Milos. 

Entre os séculos XVI e XIX, o Mar Egeu era uma rota comercial extremamente importante. Navios carregados de mercadorias cruzavam constantemente as Cíclades. E Milos tinha uma localização perfeita. 

Em Kleftiko, pelas formações rochosas do mar, existem enseadas escondidas, cavernas profundas, passagens invisíveis à distância e áreas protegidas do vento. 

Era praticamente um esconderijo natural! Por isso, era o refúgio perfeito dos piratas, ou melhor, dos Kleftes (a palavra kleftes significa literalmente "ladrões" ou "foras da lei").

Durante o domínio do Império Otomano, muitos gregos se refugiaram em áreas remotas das montanhas e ilhas para escapar do controle das autoridades. Alguns se tornaram rebeldes, outros contrabandistas ou piratas. Por desafiarem o poder da época, muitos acabaram sendo vistos como heróis pela população grega, mesmo sendo considerados criminosos pelos otomanos. Com o passar do tempo, a cultura grega acabou transformando os kleftes em símbolos de resistência e liberdade. 

Quando você chega de barco, não existe uma faixa de areia principal onde todo mundo desembarca. As pessoas ficam nadando, mergulhando e explorando as inúmeras cavernas que têm por lá! E foi isso que fizemos. Nosso grupo saltou na água — que surpreendentemente estava muitíssimo gelada — e nadamos até cruzar uma fenda e chegar em uma pequena extensão de pedrinhas, como uma pequena praia particular.

Curtimos um pouco até voltarmos para o barco para o nosso almoço! Depois, exploramos o outro lado dos paredões rochosos sob uma água muito cristalina. Nosso barco foi um dos últimos a deixar a enseada. Depois disso, ainda curtimos uma pequena praia próxima de Adamas para um último mergulho, “o mergulho para recompor as energias para a noite de Milos”, como disse o capitão. Assim fizemos. Chegamos quase às 18h no porto. 

5. Pôr do Sol em Plaka 

Mal acredito que deixei pra ver o pôr do sol mais lindo da ilha no penúltimo dia! Em minha defesa, os dias são extremamente longos e quentes durante o verão. Como eu estava trabalhando todos os dias de manhã, eu logo saía pra praia depois do trabalho e, quando chegava próximo do pôr do sol, meu corpo já estava exausto da água, do sol e do calor. Então eu nunca tinha forças pra subir até o bairro mais antigo de Milos para contemplar o pôr do sol visto de cima, desaparecendo no Mar Egeu. Eu já tinha visitado o bairro antes e me apaixonado por ele, mas nesse dia precisei aproveitar o horário do ônibus e chegar em Adamas (onde eu estava hospedada) a tempo de pegar o supermercado aberto para preparar meus lanchinhos da praia! 

Voltando à história de Plaka: durante séculos, os habitantes das Cíclades (o nome do arquipélago formado por cerca de 220 ilhas, entre elas Milos, Santorini e Mykonos) sofriam ataques de piratas no Mediterrâneo. Por isso, muitas aldeias eram construídas longe da costa e em pontos elevados, onde era mais fácil avistar embarcações inimigas. 

Plaka fica a cerca de 220 metros acima do mar e oferece uma vista estratégica de toda a baía. O branco não surgiu apenas pela estética. Tradicionalmente, a cal ajudava a refletir o calor do verão e ainda tinha propriedades antibacterianas. 

Durante o dia, o bairro é extremamente calmo e silencioso. Caminhei por horas entre as vielas pra fotografar, filmar e contemplar. Quando se aproximou o horário do pôr do sol, comprei um vinho branco e me sentei na mureta da igreja junto com outras centenas de turistas que também foram contemplar. Nesse horário, o bairro fica cheio, super movimentado e gostoso de curtir. Existem diversos restaurantes típicos gregos e muito charmosos. Por ali também comi o melhor iogurte grego da vida! 20h40 era o horário do pôr do sol, e às 21h40 passava o último ônibus para descer de volta para Adamas (onde fica o porto de Milos e também a área mais movimentada da ilha para se hospedar).

6. Uma tarde em Mandrakia 

O lugar mais queridinho da ilha, por algumas razões: vila de pescadores, casinhas coloridas, um varal de polvo, um restaurante muito famoso, uma vista absurda e água cristalina. Um cenário perfeito para fotos e conteúdos perfeitos. Por isso todo mundo gosta tanto. Os barquinhos dos pescadores, as varandas das casinhas de frente para o mar, as passarelas pintadas de um jeito curioso e único, cheias de cores. O mar parece uma piscina por ser protegido pelas pedras. Descanso total.

Ali tem outro dos restaurantes mais famosos de Milos, o Medusa, que infelizmente estava com uma fila enorme que impediu que minha fome aguentasse esperar, mesmo sabendo que ali tem um dos polvos mais famosos da região! Pra minha sorte, eu tinha meu kit sobrevivência no meu potinho térmico da Kouda. Sentei em uma das passarelas das casinhas coloridas e comi meu lanchinho apreciando a vista: patê de atum fresquinho com pão pita. 

Explorei todo o vilarejo até encontrar, atrás do restaurante, uma das vistas mais típicas de Milos: o varal cheio de polvos secando ao sol!

Deixa eu te contar dessa técnica: o polvo era pescado de manhã, e muitas famílias por ali viviam da pesca. Eles batiam o polvo nas pedras. Parece estranho, mas era uma técnica real. O polvo tem fibras musculares muito fortes. Se você simplesmente cozinhar um polvo fresco, ele pode ficar extremamente borrachudo. Depois, o polvo ficava secando ao sol, e isso ajuda a reduzir a água da carne, concentra o sabor e também ajuda na textura. 

Depois, vai pra grelha.

É esse polvo que você encontra no restaurante Medusa (ah, o polvo já não é mais batido nas pedras, porque hoje já existem outras técnicas para deixar a carne macia). O varal de polvos aesthetic não é para chamar turistas, é uma técnica real utilizada na Grécia e em outros países do Mediterrâneo. Fica a dica pra quem visitar. E chegue cedo, pra ter mais sorte que eu! 

7. Último dia em Tsigrado e Firiplaka, pra fechar com chave de ouro! 

Tsigrado é uma praia muito famosa da ilha pela sua maneira curiosa de chegar até ela. Uma trilha de 5 minutos que pode se transformar em 45 dependendo do trânsito. Para chegar até ela, é preciso passar por uma fenda estreita entre as rochas, usar corda para não escorregar pelo terreno arenoso, descer uma escada de madeira extremamente suspeita e pronto: contemplar uma vista absurda de uma pequena baía escondida, com águas extremamente azuis, falésias brancas e pedras escuras. 

Confesso que não achei a trilha tão absurda assim como falam na internet. Na verdade, nada absurda. Só tomar cuidado com a escada, que tem alturas de degraus diferentes, e às vezes tem um espaço grande entre um degrau e outro. Só é preciso ter calma, cuidado e fé! Hahahaha. Mas posso garantir que vale a pena… 

Você pode cruzar a rocha e chegar na praia em 5-10 minutos se não tiver trânsito — ou seja, pessoas tentando subir na direção contrária. Eu demorei uns 15, e todo mundo foi muito paciente e gentil. A praia é pequena e, por sorte, não estava tão cheia assim. Ouvi relatos de que às vezes fica muito cheia, difícil pra descer e pra subir. Por isso eu sempre recomendo ir nesses lugares turísticos o mais cedo possível (não foi meu caso, eu cheguei em torno de 13h30 de ônibus). 

Ainda bem que eu fui! Quase deixei de ir com medo de estar cheia. Mas como era meu último dia, eu precisava conhecer essa praia. Uma das coisas que mais amo é água cristalina, por isso eu não podia perder. A água realmente é um absurdo: vista de cima, vista da praia e vista de dentro. 

Existem umas pequenas covas que, quando a luz bate, ficam de um azul-turquesa muito brilhante. As pedras do chão são escuras, o que deixa esse contraste de cores ainda mais curioso e especial. 

Nadei, contemplei, tomei sol, tomei cafézinho quente que eu levei comigo (sim, em um calor de quase 30 graus) e comi meu último lanchinho grego. 

Depois disso, subi a temerosa escada e segui pra praia ao lado. Contemplei de novo a vista de cima, e o azul parecia ficar mais azul a cada hora. 

Caminhei 15 minutos até Firiplaka. Que surpresa boa. 

De longe, o visual dela me lembrou a Diamond Beach, da Indonésia, por suas falésias "recortadas", pelo seu paredão branco vulcânico e algumas formações rochosas no meio do mar. É uma das praias mais lindas que eu já fui na vida fora do Brasil. Mas tem algo muito interessante nessa praia que eu nunca tinha sentido antes.

Chegando na praia, tem a estrutura de um bar e logo uma extensão gigante e selvagem de praia. 

Você pode cruzar várias pedras e chegar até o fim. Eu fiquei ali no meio. O fato mais curioso é que, quando você entra na praia, ela não parece nada demais. Ótima para banho, ótima pra ficar sentada no barzinho curtindo, mas não tem o mesmo impacto visual que se tem de longe. 

Mas tem um impacto visual ainda mais bonito e especial quando você a vê de dentro d’água. 

Quando eu entrei e nadei, fiquei perplexa com a beleza dessa praia. Ela entrou pra uma das praias mais especiais que já nadei! A água é tão azul, o fundo é tão claro, e quando você olha pro lado selvagem da praia, você é capaz de nadar por muitos metros sem ninguém ao seu lado, com a vista de uma praia totalmente selvagem, com paredões brancos, e a água só vai até seu umbigo. 

Achei muito divertido nadar entre os paredões rochosos no meio da água e, ainda assim, me sentir segura, pois os bancos de areia deixavam a água rasa. É perfeita para nadar. 

Fiquei num impasse se eu pegava o ônibus de volta das 16h40 ou se esperava até as 18h30. Minha comida já tinha acabado, eu estava ficando com fome e eu estava com pouca bateria! Fui ao bar ver se conseguia comprar alguma comida e carregar o celular pra conseguir ficar mais. Era meu último dia, e eu queria muito passar o resto do dia nadando naquela água. 

O pessoal do bar foi muito gentil. Carregaram meu celular, eu comprei comida e ainda me deixaram ficar em um sofá muito confortável tomando sol. Passei algumas horas por ali sozinha, conheci um senhor grego que também estava sozinho e compartilhou algumas histórias interessantes de Creta, a ilha onde ele morava. 

Recomendei que ele fosse conhecer Tsigrado antes de partir, pois também era seu último dia. Logo ele se foi. 

Aproveitei ao máximo possível o mar e o sol, e logo também fui.

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