Capítulo 1 - Arenas de Cabrales
Dia 1 de janeiro. Uma manhã invernal em Madrid. Longe do calor de casa, uma virada de ano me protegendo do frio, sem pular 7 ondinhas na praia. Foi aí que eu abri o computador em busca de alguma coisa que fizesse meu coração bater mais forte. Eu já tinha olhado alguns lugares que queria conhecer na Espanha, mas pra essa ocasião específica, a força motora da escolha certa era olhar para uma foto e sentir o coração bater mais forte. E olha que essa não é uma missão muito difícil pra mim. Mas pra ajudar a preencher o buraco de estar longe de casa em uma data que eu me sinto mais sensível, eu precisava ter certeza de que era o lugar certo. Depois de ver vários lugares paradisíacos, encontrei essa foto:

Ali meu coração quase saltou pela boca: eu já tinha visto esse lugar em alguma televisão, sabe-se lá onde! Mas eu já tinha visto. De repente eu tinha a oportunidade mais aleatória de todas de chegar até lá. Confesso que fiquei emocionada, porque um dia a gente sonha com coisas que parecem tão distantes - e em outro dia a gente tá lá vivendo ela sem nem se dar conta. Uma das coisas que eu mais amo em viajar é poder realizar sonhos sabendo que se está realizando sonhos. Porque fala sério... quantas vezes a gente realiza sonhos sem perceber que aquilo já foi mesmo um sonho? Seja porque o cotidiano fez a gente normalizar aquilo, ou que a gente nem sequer lembra que já quis muito viver aquilo um dia (mesmo que um sonho de anos ou décadas atrás).
Bom, voltando à viagem. Não pensei duas vezes, nem pesquisei muito e já comprei a passagem de ônibus. O bom da Espanha e Europa em geral é que algumas horas dentro de um ônibus não é nada comparado com uma viagem dentro do Brasil.
Madrid > Oviedo > Oviedo > Cangas de Onís > Arenas de Cabrales, meu destino final. Ponto de partida pra eu acessar o Parque Nacional Picos de Europa. Dali dava pra ir a pé até o mirador ver o Naranjo de Bulnes (esse daí da foto) e fazer algumas trilhas do parque. E pronto. Esse era o plano, o resto eu ia viver.
Pouco depois, fazendo uma pesquisa mais séria, me dei conta que era a pior época do ano para visitá-lo. Sabe aquele ditado que diz que quem tem muitas opções no fim não tem nada? Bom, esse é um tema de estresse e ansiedade para muita gente que decide não ter casa e nenhuma estabilidade.
“Esse fenômeno foi descrito pelo psicólogo Barry Schwartz. Ele defendia que o excesso de liberdade pode ter efeitos adversos sobre o nosso bem-estar. Em vez de nos deixar mais felizes, uma abundância de opções tende a nos bloquear, frustrar e provocar a sensação de que poderíamos ter escolhido melhor".
Me parece um privilégio enorme ter esse tipo de problema! Ainda mais se tratando de destinos pelo mundo. Então, ao invés de voltar atrás na minha decisão, pensei: oportunidade perfeita pra eu soltar o controle e tentar não me estressar com p*** nenhuma. E para mim isso é muito difícil, ou melhor, dificílimo! Por isso a vida na estrada nos ensina tanto.
Na estrada eu já comecei a me emocionar, foi “umas das coisas” mais lindas que já vi. Depois de mais de 7h, chegando lá: muita chuva, e nem sapato adequado eu tinha. Foi só uma passagem de ônibus e um sonho. Comecei precisando comprar um tênis impermeável pois era questão de sobrevivência lidando com um frio de 7 graus.

Sem estresse com o clima! Céu muito nublado, zero visibilidade. Caminhei sob chuviscos pela redondeza e bonitas surpresas no meu dia. Foi demais! Fiz várias trilhas por caminhos rurais. Muitas montanhas, pastos, ovelhas, cachorros de pastoreio me dando sustos, e o som que ecoa por toda a cidade é do sino que fica nas vacas do pasto. Depois de muita paisagem linda, água caindo do céu e muita neblina, descendo a trilha de volta pra casa, olho pra trás e vejo ele! O Naranjo de Bulnes no meio de uma paisagem surreal entre as neblinas. Ali já fez tudo valer a pena!
Antes de dormir pesquisei uma trilha bem legal que dava para ir caminhando desde a minha pousada. O clima prometia céu aberto pela manhã. Me empolguei, claro. Decidi ir de novo no mirador caminhando, e de lá pedir um táxi até a entrada da Ruta del Cares. É uma das trilhas de trekking mais populares dentro dos Picos da Europa. Decidi ir de táxi até a entrada do parque porque vi que a estrada até lá era perigosa: muitas curvas e sem acostamento para pedestre. Era possível ir andando, mas preferi não arriscar - e assim também ganhar tempo para ir no mirador logo que o sol saísse.
E assim eu fiz. Dessa vez, céu com poucas nuvens. Eu sabia que não era o melhor horário para visitar, pois o sol ainda estaria por de trás das montanhas, mas ainda tive o privilégio de ver a lua tão cheia ainda se escondendo. Chegando lá, fiquei contemplando (e gravando) até o táxi me buscar.
A Ruta del Cares tem 24km ida e volta. Começa no pueblo de Caín e termina em Poncebos. Como eu estava em pleno inverno e sozinha, eu já sabia que não ia ser possível fazer a trilha completa. Em alta temporada é possível ir até Poncebos e voltar de ônibus ou táxi (e caminhar só os 12km de ida). Mas no inverno não há ônibus pra voltar para a cidade, e não era muito recomendado tentar a sorte de uma carona pelo baixo fluxo de pessoas. A trilha não tem sinal, entao tem que deixar combinado um horário certo com o táxi. Fui sem saber como ia voltar!
A trilha é super tranquila! Você caminha pela garganta do Rio Cares. No inverno o cenário é muito especial. Neve pelas montanhas, pouquíssimo fluxo de gente. Um local me falou que no final das contas é a melhor época para se fazer a trilha. Tranquilidade, sossego, paisagem de cinema. Olha só como o destino pode surpreender a gente. E o céu ficou totalmente aberto quase o caminho todo.
Quando você acha que já viu de tudo na trilha, você “vira uma esquina", ou melhor, vira umas pedras e se depara com outra montanha enorme cheia de neve. Foi muito muito muito especial. Fiquei encantada do começo ao fim.
Caminhei 9km de ida. Faltavam apenas 3 pra chegar em Poncebos, mas decidi voltar. Eu ainda precisava trabalhar nesse dia (a vida nômade tem dessas) e também não queria arriscar ter que voltar à noite pela estrada de carros cheia de curvas. Quando saí da trilha oficial, ainda me surpreendi com a estrada do início da trilha onde se vê o rio maravilhoso bem de perto. Ali tem uma estação de um funicular que te leva até uma outra cidade. Como eu estava sem sinal, fui lá tentar descobrir um wifi para pedir pro táxi me buscar de volta. Definitivamente não valia a pena arriscar a vida na estrada cheia de curvas sem acostamento. Geralmente não faço essas regalias na estrada, mas essa era questão de segurança.
Não tinha Wi-fi. A moça me ofereceu pra chamar um táxi pra mim, mas já não tinham táxis disponíveis na cidade, e que ela havia chamado o último para uma família que estava lá de fora esperando. Decidi ir lá pedir ajuda. Eles me convidaram para ir com eles, e quando o táxi chegou, era o mesmo que havia me trazido até aqui. Cheguei em casa em torno de 17h30. Ao total foram 18km. Tomei banho, comi e fui trabalhar.




Compartilhe:
Dicas de Uma Viagem pelo Marrocos